Não me lembro muito bem do que conversamos, só lembro que entre os momentos de silêncio eu deixava por escapar pequenos sorrisos de alívio. A voz dela era suave, mas seu riso seco lhe dava um jeito de maturidade que eu admirava discretamente. Perguntei o que ela fazia tão tarde longe de casa e ela se limitou a responder que estava voltando pra casa. Ela me perguntou o mesmo e eu apenas fiquei em silêncio, até que ela soltou outra de suas risadas sarcásticas e passou a falar de outra coisa.
Mais ou menos meia hora depois de começarmos a conversar ela me avisou que ia descer na próxima parada, me ofereceu a mão num cumprimento alegre e me desejou boa sorte. Levantei também, menti que o ponto dela era o mesmo que o meu e a convidei para tomar um café. Nesse ponto, deveriam ser vinte para as três, no máximo. Ela riu e aceitou, peguei minhas duas maletas e a acompanhei para fora do vagão.
Andamos num passo corrido até a rua e procuramos no bairro (que eu desconhecia completamente, teria grandes dificuldades em voltar para casa caso ela me abandonasse) qualquer lugar onde pudéssemos entrar para tomar um café. Ela se ofereceu em dado momento para levar uma das minhas malas e eu, sem nem pensar se era algo ridículo a se fazer, permiti que ela me ajudasse a levar o peso. Acabamos por entrar em um supermercado vinte e quatro horas e fomos para a praça de alimentação vazia. Uma música ambiente calma e aconchegante me acalmou e ela parecia achar grande graça em toda aquela situação e em mim. Pensei que muito provavelmente estava passando por papel de bobo em tudo que fazia e falava, mas aquilo não me incomodava mais. Estava longe de casa, no meio da madrugada, tomando um café numa praça de alimentação suja e vazia com uma garota desconhecida e que provavelmente me via como um palhaço. Mas ela era bela, carismática e sua sinceridade dura e seca me agradavam muito para que eu me deixasse levar pelas preocupações.
Tomamos dois cafés cada um e conversamos. Conversamos sobre o livro verde que ela levava no bolso do casaco, sobre a noite, sobre música e sobre qualquer outra coisa. Até que passamos para uma brincadeira boba, aparentemente infantil e casual, mas que trouxe mais do que poderia se esperar.
- É bem simples, na verdade. Até você pode jogar isso, aliás, você nunca jogou? – Ela me perguntou com um risinho enquanto esvaziava o segundo copo de café. Sem me deixar responder, se ajeitou na cadeira e continuou – Pois bem, eu começo. Lembra, você não pode mentir, e apenas uma pergunta por vez. O que você está fazendo fora de casa tão tarde?
Engoli seco, mas respondi. Com a voz baixa e envergonhada, encarando meus pés e nervoso, mas respondi. Disse que tinha fugido de casa. Disse o que tinha nas malas que ela me ajudava a carregar. Ela, surpreendentemente, deu apenas uma risada surpresa quando escutou a patética razão e falou que era minha vez. Repeti a pergunta dela, numa voz ainda baixa, mas agora ligeiramente irritada.
Ela deu de ombros, esboçou um sorriso de desculpas e respondeu com gracejos bobos.
- Pois é, eu acho que eu fugi de casa também.