komakino.
no words could explain, no actions determine
midnight black earth - pt.III

Em primeiro momento, achei que a resposta era outro deboche. Encarei-a sério, esperando uma explicação melhor do que aquela. Ela, parecendo pela primeira vez realmente desconfortável com tudo aquilo, devolveu meu olhar com a mesma seriedade e começou a falar numa voz de vergonha e desprezo, quase como se estivesse contando a história de outra pessoa pela qual nutria muito pouco carinho: 
- No começo desse ano comecei a sair sozinha para andar pela cidade porque não agüentava ficar em casa. Não agüentava mais gritos, brigas e discussões e já estava cansada de tentar me livrar de tudo aquilo me trancando no meu quarto. No começo eu saia por alguns minutos, depois comecei a passar tardes inteiras fora e, hoje em dia, eu dificilmente passo mais do que uma hora em casa por dia. Fico andando por aí, lendo alguma coisa, escutando alguma música. De dia, olho para as pessoas e para o movimento. De noite, sinto o frio e a calma, gosto do silêncio. Pode parecer idiota, posso parecer estranha… Mas é isso aí. Só estou fugindo há mais tempo que você. – Ela terminou com outro riso seco, fechou a cara numa expressão emburrada, cruzou os braços e encarou o chão esperando minha reação. 
O silêncio só foi preenchido pela agradável música da praça de alimentação enquanto eu absorvia as informações. Por fim, dei uma gargalhada sincera. Ela levantou os olhos lentamente, me olhando surpresa. 
- Espetacular! Você deve ser a garota mais legal que eu já conheci! – Exclamei em voz alta, dando as mãos para o céu e ainda sorrindo. 
Ela soltou um pequeno riso tímido para me acompanhar. Mexeu no cabelo, afastando-o do rosto. Retornou para sua postura confiante de antes, com satisfação aparente no rosto e em suas covinhas que não se deixavam esconder. 
- Certo, é sua vez de perguntar agora. 
Pensei alguns momentos no que perguntar. Vislumbrei o supermercado vazio e as poucas pessoas que andavam pelo ambiente soturno e calmo, deixei a música genérica entrar na minha mente. Perguntei, já levantando da mesa: 
- Vamos andar mais um pouco? 
Ela levantou também. Andamos, corremos e brincamos como crianças pelos corredores vazios de madrugada do lugar. Dançávamos e cantávamos quando alguma música brega e calma que conhecíamos começava a tocar. Vimos livros e DVDs, conversamos com alguns funcionários cansados. Sentamos por alguns momentos para descansar no corredor de colchões e travesseiros. Ofegante de ir correndo até lá, perguntei para minha sorridente companheira: 
- Para onde vamos agora? 
Ela riu, levantou e apontou para a distante porta de saída. Juntos, fomos para o frio e o sereno da madrugada. Eram quatro da manhã. 
- Acho que agora você deveria passar na sua casa e deixar essas malas, estou cansada de carregar isso. – Ela disse, apontando para a mala que carregava.

  1:49 am  |   January 4 2012   |  1 note  

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twentyten by Justin Waggoner