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no words could explain, no actions determine
midnight black earth - pt.IV

Receoso, perguntei se ela não preferia me deixar ir sozinho. Tentei argumentar que poderíamos nos encontrar em outro dia, que eu podia levar as malas sozinho, mas ela apenas me ignorou. Apenas foi me acompanhando de volta para a estação de metrô conversando despretensiosamente, balançando a mala que carregava para cima e para baixo. Qualquer menção de ir embora fazia com que ela apenas risse e desconsiderasse a idéia. 
- Você se perderia se eu te deixasse aqui, aposto que você mal sabe onde está. – Ela debochou em certo momento. Acabei por desistir de retrucar depois disso. 
O frio da noite vinha acompanhado de uma sutil e agradável garoa. Os nossos passos iam rápidos até a estação e o chão asfaltado brilhava com as luzes da cidade. Um momento de confortável silêncio surgiu entre ambos. Admirávamos a beleza e tranqüilidade daquela situação. Pequenos olhares vinham com sorrisos sinceros e ligeiros que surgiam tempo em tempo, mas malas continuavam a balançar junto com os passos. O cheiro da chuva trazia uma calmaria para tudo, mas ainda íamos apressados. 
Chegamos à estação, mas os metrôs já tinham encerrado o expediente. Já eram quatro e meia, e a linha só voltaria a funcionar seis da manhã. Frustrados e ofegantes, sentamos na praça de entrada da estação. Ela suspirou ao depositar a mala molhada ao seu lado. Eu dei um sorriso bobo e disse, num tom brincalhão: 
- Parece que vamos ter que esperar duas horas pra poder se livrar do peso das minhas malas. 
Ela sorriu. A praça da estação estava completamente vazia. Apenas muito longe um segurança aparecia de tempos em tempos, mas no resto do tempo eram apenas ambos lá, sentados no silêncio e esperando. Ela se aproximou mais de mim, apoiou a cabeça em meu ombro e me encarou encabulada. Ela bocejou abertamente, se ajeitou ainda mais, esboçou qualquer fala monossílaba e tímida e se aquietou, ficando em silêncio por um tempo. Conversamos em vozes baixas, intimidados pela amplitude do lugar, mas nada de relevante foi dito. Pequenas risadas vinham e iam, mas acima de tudo refletíamos pequenas coisas sobre o mundo, pequenos pensamentos que queríamos compartilhar. 
Duas horas depois, com a manhã já nascendo e a estação retomando a vida, alertei-a para irmos embora. Entramos no metrô e ela aparentava estar ligeiramente preocupada e desconfortável, mas seus sorrisos desconfortáveis ainda vinham quando eu me perdia ao encarar sua beleza. As conversas desaceleraram em mais quietas e tímidas com o mundo inteiro retomado de gente ao nosso redor. Parecia que nosso lugar agora era invadido por rostos estranhos e emburrados de uma manhã que se prenunciava. 
Chegamos à minha casa. Ela me desejou boa sorte. Entrei, deixei minhas malas no meu quarto, fui à procura de minha mãe. Ela permanecia dormindo e provavelmente nem notara que eu tinha fugido. Rindo da ironia da situação, saí novamente de casa. 
Ela me esperava lá fora, com os braços cruzados e batendo os pés, aparentemente ansiosa. 
- Foi difícil? – Ela me perguntou, com um sorriso de desaprovação e sarcasmo no rosto. 
Antes de eu responder, ela se aproximou e me beijou. Com a alvorada chegando, com os carros começando a povoar as ruas, ela me beijou em frente de minha casa. Passou seus braços ainda ligeiramente úmidos de garoa ao redor do meu pescoço e, com o rosto ruborizado e os gestos tímidos, me deu um abraço após o beijo. Passamos um tempo incomensurável juntos, em um silêncio contínuo, felizes pela companhia um do outro e revendo a noite que tivemos. Eu me sentia leve como nunca. Todos os problemas que tinham me feito fugir de casa pareciam ter desaparecido. O mundo agora me parecia um lugar calmo e belo, pronto para me abraçar em simpatia quando eu precisasse. 
Com uma voz baixa, ela colocou um papel no meu bolso e sussurrou no meu ouvido: 
- Te vejo essa noite de novo, espero. 
Com isso ela saiu andando, com um sorriso confiante brotando novamente em seu rosto delicado. Eu, por vez, fiquei paralisado ali, encarando-a se afastar. Quando ela finalmente sumiu virando a esquina, coloquei a mão no bolso e olhei para o papel. 
Era o endereço do supermercado e o telefone dela. Sorri, voltei para casa, dormi a tarde toda naquele dia e acordei onze da noite. Vesti-me, saí sorrateiro e deixei o silêncio e o frio da noite me tomarem enquanto pegava o ônibus para ir até a estação de metrô. 

Fim.

  1:48 am  |   January 4 2012   |  1 note  

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